100 dias com controvérsias

Governo interino de Michel Temer registrou praticamente uma polêmica por dia nos três primeiros meses, mostra pesquisa inédita do Volt Data Lab


Desenvolvido por Volt Data Lab | 31/08/2016

Por Sérgio Spagnuolo e Juliana Elias



http://bit.ly/volt_t100

Se o governo anterior, de Dilma Rousseff (PT), teve sua cota considerável de polêmicas e desventuras, a administração de Michel Temer (PMDB) em seu período como interino também foi amplamente controversa: houve praticamente uma polêmica por dia.

Pesquisa inédita do Volt Data Lab classificou cerca de 700 reportagens, notas e publicações da Agência Brasil de 12 de maio a 22 de agosto nas quais o presidente Michel Temer foi citado, e mostra que o período foi marcado por polêmicas, protestos e repercussões negativas - mas também, diga-se, pelo destravamento de novas políticas na pauta nacional.

Desde que assumiu o cargo interinamente, em 12 de maio, o governo Temer gerou controvérsias, partindo da formação inicial de seu gabinete majoritariamente masculino e branco até a demissão prematura de ministros e reajuste de servidores públicos em tempos de vacas magras. Mas isso ainda não estava quantificado.

Os dados levantados nesta pesquisa quantificam, de uma forma geral, a situação delicada do governo até mesmo antes da definição do afastamento definitivo de Dilma, em 31 de agosto.

O gráfico abaixo mostra o resultado da pesquisa dividido em categorias (no centro) e subcategorias (nos lados). Ao passar o cursor sobre as palavras, cada "corda" do gráfico mostra a proporção que cada categoria ou subcategoria representa no total e entre elas.

Use o cursor ou, em celulares, vire a tela e toque para interagir com o gráfico

Controvérsia

substantivo feminino

  1. discussão, disputa, polêmica referente a ação, proposta ou questão sobre a qual muitos divergem
  2. p.ext. contestação; impugnação
  3. Etimologia: lat. controversĭa,ae 'embate, choque de opostos'

Um começo polêmico

Embora seja difícil especificar exatamente - a partir da contabilização apenas da cobertura noticiosa - todas as ocorrências do que aconteceu durante os 100 primeiros dias de Temer à frente do governo, essa quantificação fornece uma dimensão bastante contundente.

Das 694 matérias1 analisadas pela reportagem, 89 delas tratavam de polêmicas2 envolvendo seu governo ou seus aliados, ou cerca de 13% do total.

Polêmicas de destaque incluíram, por exemplo, a breve extinção do Ministério da Cultura, o licenciamento do então ministro do Planejamento Romero Jucá do cargo após vazamento de escutas telefônicas e a proibição de Dilma viajar em aeronaves da Força Aérea.

Claro, outros tipos de matérias são mais abundantes, até porque o governo, no fim das contas, precisa continuar funcionando. Mas se dividirmos as polêmicas pelos 100 primeiros dias do presidente no poder, vemos que se trata de quase uma por dia. Ainda não temos dados comparativos3 com o governo anterior, mas não é preciso muito mais para sabermos que uma polêmica a cada dia é um dado significativo.

Vale notar que nem todas as matérias da Agência Brasil falam de casos diferentes, mas análise do Volt concluiu que a reincidência dos mesmos temas em headlines diferentes é baixa, o que demonstra que cada matéria publicada pela agência fornece um número aproximado de ocorrências únicas.

Boa parte da cobertura da Agência Brasil foi publicar notas com declarações de Temer, de ministros ou de outros membros do governo (quase 20% das matérias), assim como noticiar novas políticas apresentadas ou falar das antigas (18%).

Chama a atenção também o desmonte de pessoal implementado por Temer. Obviamente, era esperado que ele reformulasse todos os ministérios e que a base aliada se reformulasse, como faz qualquer novo mandatário. Mas houve cerca de 50 trocas no alto escalão do governo, ou uma a cada dois dias, num total de 73 headlines.

Repercussões e Políticas

O maior número de matérias publicadas tratam de repercussões sobre o governo Temer, vindas, obviamente, de fora de agentes do Executivo.

As repercussões contrárias a Temer são maioria. Das 269 matérias que mostram repercussões sobre a nova administração federal, 53% delas foram negativas ao governo, enquanto 13% foram positivas e 34%, neutras.

Das 142 matérias com repercussões negativas, metade falam de protestos que aconteceram seja contra ações do governo ou questionando a legitimidade da administração interina.

As repercussões tratam de matérias na ABr que não têm como agentes membros do Poder Executivo brasileiro, tratando-se de um ecoamento de posições ou opiniões de agentes "externos", como políticos e estrangeiros, sindicatos patronais, associações, movimentos sociais etc.

Por exemplo o headline "Senado e Câmara fazem as primeiras sessões deliberativas no governo Temer". Ao analisar essa matéria, vemos que Temer é apenas citado como chefe do governo, não há ação por parte do Executivo, então classificamos como "neutra".

Apesar dos dados que demonstram um governo que já se iniciou com controvérsia, nem tudo foi negativo. Falou-se também de políticas necessárias que tramitaram no Congresso ou foram decretadas pela Presidência.

Das 694 matérias, 18% trataram de políticas no período, especialmente - mas não apenas - visando o equilíbrio fiscal do governo ou negociações de pautas consideradas urgentes, como a reforma da Previdência.

Contexto

A constante presença de protestos, polêmicas e repercussões nas principais notícias sobre os primeiros três meses de Michel Temer à frente do Planalto, se não é suficiente para clarear os direcionamentos do novo governo, ao menos dá uma ideia da falta de consenso que embala as opiniões a seu respeito.

Representantes de interesses distintos da sociedade, falando ao Volt, apontaram os episódios mais relevantes nos pouco mais de 100 dias em que Michel Temer governou interinamente o Brasil - desde 12 de maio, quando o Senado confirmou a abertura do processo de impeachment contra Dilma Rousseff, até o 31 de agosto, quando a ex-presidente foi de fato afastada.

foto Dilma no Senado
Ex-presidente Dilma Rousseff faz sua defesa durante sessão de julgamento do impeachment, no Senado, em 29/08/2016, ao lado do presidente do STF, Ricardo Lewandowski, e o presidente do Senado, Renan Calheiros. Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Para Ricardo Ribeiro, analista de política da LCA Consultores, consultoria de economia e negócios voltada a grandes empresas e investidores, o que se sobressaiu do governo Temer foi uma gestão ‘parlamentarizada’ que, se por um lado, fez concessões a alianças, por outro mostrou muito mais eficiência em aprovar agendas que, com Dilma no comando, ficaram travadas.

Já para José Moroni, filósofo e historiador que compõe o corpo do Instituto de Estudos Econômicos (Inesc), organização de promoção e defesa dos direitos civis e direitos humanos, o tom predominante de Temer e sua equipe foi o de um grande retrocesso na seara de direitos.

“O primeiro grande evento foi a montagem do ministério, que já deu uma pista do que seria e provavelmente será este um governo; um governo muito conectado com o Congresso”, disse Ribeiro, da LCA. “Mais de 50% dos novos ministros são parlamentares, e todos os partidos maiores que apoiaram o impeachment estão representados no ministério numa proporção muito semelhante à suas participações no Congresso”.

Outros projetos sobre os 100 dias de Temer

100 dias com ele - Folha de S.Paulo
100 dias de governo Temer em 9 momentos-chave - Nexo
100 dias de governo Temer - Site da Presidência

PMDB, PSDB, PP, DEM, PV e PSB foram as legendas que ganharam ao menos um indicado lista de ministros da nova gestão, divulgadas na manhã do dia 12 de maio, poucas horas depois do término da votação pela abertura do processo de impeachment no Senado, na madrugada do dia 11 para o dia 12.

Ribeiro destacou algumas mudanças de direcionamento importantes no posicionamento referente a determinadas políticas, com destaque para a política externa, que aponta para um afastamento dos vizinhos latinos e reaproximação dos tradicionais parceiros Estados Unidos e Europa. Destacou também a pauta de privatizações, que já vem sendo desde junho anunciada e estruturada por Temer e sua equipe econômica.

“Mas a principal diferença é a governabilidade política”, diz o analista. “A agenda de ajustes já tinha sido assumida com Dilma, com a diferença que o PT nunca assumiu essa agenda e isso dificultava o trabalho no Congresso. Agora, o que temos é isso: um governo que negocia, cede em algumas coisas para tentar aprovar outras mais importantes.”

Para Moroni, do Inesc, a composição do ministérios e o rearranjo subsequente nas pastas também está entre as principais notícias que vieram com Temer, mas a mensagem que apreende é outra.

“O rebaixamento de ministérios não é só uma questão de status, mas de haver ou não reconhecimento de determinados sujeitos dentro das políticas públicas”, diz ele. “Mulheres, a população negra, indígena e LGBT são alguns destes grupos. É muito simbólico por exemplo não ter nenhuma mulher no ministério. Não é um acaso. A política também é feita de simbolismos”.

A composição exclusiva de homens brancos em todos os ministérios foi uma das primeiras grandes polêmicas acerca de Temer tão logo ele anunciou o novo gabinete, no dia de sua primeira posse.

Entidades civis e publicações nacionais e internacionais chamaram atenção para o fato. Conforme correu o mês, porém, o presidente interino buscou diversificar sua cúpula com alguns convites a mulheres recusados e outros aceitos - vieram em 17 de maio a procuradora e professora Flavia Piovesan, para a Secretaria de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, e, em 1o de junho, Maria Silva Bastos, para o BNDES.

Tão imediata quanto a controvérsia do time masculino, foi a da revisão e rebaixamento de ministérios, também anunciada junto aos novos nomes por Temer no primeiro dia de comando.

A de maior repercussão delas - a extinção do Ministério da Cultura para acoplá-lo ao da Educação - foi revista pouco tempo depois.

Mas Moroni destaca outras: “O Ministério do Desenvolvimento Agrário foi revisto, o que reduz a parte voltada à família e ao social, e o Ministério da Previdência foi fatiado, com a parte de benefícios e desenvolvimento social indo para a Fazenda, modelo que existiu no Brasil até 1923”.

Movimentos como estes, na análise do Inesc, subordinam a gestão de interesses sociais, como a reforma agrária ou as aposentadorias, que antes eram independentes, à política econômica coordenada na Fazenda e ao governo central.

“Do ponto de vista da forças populares, dos movimentos que lutam pelos direitos humanos e a defesa dos direitos sociais, não há nada de positivo. O que vemos é uma grande retrocesso”, conclui Moroni.


Créditos

Este projeto foi feito pela agência de jornalismo Volt Data Lab.

A reportagem é de Juliana Elias e o levantamento, a edição e os gráficos são de Sérgio Spagnuolo. Agradecimentos especiais a Heloisa Pizzo, do Volt, e a Tai Nalon, do site de checagem Aos Fatos, pelo feedback.

Metodologia

A pesquisa analisou cerca de 700 reportagens, notas e publicações da Agência Brasil de 12 de maio a 22 de agosto nas quais o presidente interino Michel Temer foi citado.

Foram realizadas buscas na aba de "Notícias" do Google com o nome de “Michel Temer”, levando em conta apenas material publicado no site da agência estatal de notícias.

Note que a aba "Notícias" foi utilizada. Isso é particularmente importante porque evita repetições nos mesmos temas, nos mesmos dias. Ou seja, por exemplo, no caso da saída de Romero Jucá no Governo, a matéria de destacada nas buscas pelo critério de popularidade do Google foi "Temer diz que Jucá continuará auxiliando governo fora do ministério", e não "Jucá vai se licenciar do cargo de ministro do Planejamento", como seria de se esperar. No entento, a polêmica é a mesma, mas a segunda matéria não consta na pesquisa, por ser redundante e não constar na aba "Notícias".

Matérias sem citar Temer diretamente texto no das matérias foram desconsideradas, mesmo que envolvessem aliados, ministros ou políticas ligadas a ele. Às vezes o nome do presidente interino pode constar nos metadados da página, mas não necessariamente no conteúdo.

Além disso, outras matérias como que as falam genericamente de governo ou medidas provisórias, por exemplo, sem citar Temer, também foram desconsideradas.

Os critérios de escolha para selecionar a Agência Brasil como fonte foram:

  1. fonte aberta;
  2. isenção4;
  3. cobertura geral de assuntos de governo;
  4. não repetição exaustiva de de temas5.

Embora alguns casos não tenham sido reportados pela Agência Brasil, é razoável considerar que a agência estatal faça uma cobertura bastante geral do governo, sendo possível, assim, chegar às conclusões da pesquisa.

O conteúdo levantado foi classificado em cinco categorias principais e nove subcategorias, escolhidas após primeira análise do material, buscando sempre a neutralidade na escolha.

São as categorias:

  1. Polêmicas = controvérsias envolvendo Michel Temer, integrantes do governo ou políticas federais;
  2. Políticas = questões envolvendo políticas públicas a respeito de diversos temas, como econômicos, sociais, ambientais etc. promovidos pelo governo federal e seus membros;
  3. Repercussões = reflexões, comentários gerais, opiniões, manifestações sobre o governo interino ou sobre o presidente interino por interlocutores de fora do Executivo, seja a neutro/indefinido, a favor ou contra ele. Podem ser positivas, negativas, ou neutras;
  4. Nomeações = indicações ou exonerações feitas por Michel Temer para cargos federais e articulações para posições no Congresso;
  5. Perspectivas no governo = situação atual, previsões, interesses declarados, comentários gerais, promessas, declarações gerais, posicionamentos, itens de itinerário do presidente e do governo e planos não concretos por membros do governo.

São as subcategorias:

  1. Base Aliada = item relativo a questões políticas do governo no Congresso;
  2. Cortes & Revisões = relativo a revisões (para cima ou para baixo) de programas existentes e cortes orçamentários, por exemplo;
  3. Ministros & Cargos = relativo a questões sobre ministérios e ministros e indicados a cargos no governo federal e estatais como sujeitos ativos, como por exemplo a questões relacionadas a eles mesmos, como polêmicas, nomeações, expectativas sobre o cargo e interesses, ou a discussões sobre políticas gerais etc;
  4. Novas Políticas = relativo a novos programas, ações e medidas do novo governo;
  5. Políticas Existentes = relativo à manutenção de programas, planos e políticas existentes, sem revisões ou cortes;
  6. Protestos = relativo a manifestações contra o governo por grupo de pessoas;
  7. Impeachment = relativo a repercussões relacionadas ao impeachment de Dilma Rousseff;
  8. Temer = tópico relativo diretamente a Michel Temer como sujeito ativo em assuntos gerais;
  9. Outros = todo o resto que não cabe nas subcategorias mencionadas;

É muito importante notar que, muitas vezes, certos headlines podem caber nas mesmas categorias ou subcategorias. O critério de escolha do Volt por certa categoria veio pela análise do material. Por exemplo, se o critério "polêmicas" e "repercussões" coubessem na mesma matéria, "polêmica" foi considerado prioritário. O mesmo vale para "políticas" ou "declarações", onde "políticas" foi prioritário, contanto que se tratasse de uma proposição clara, não apenas de uma declaração vazia de um membro governo.


Todos os dados da pesquisa você pode acessar aqui:

Os gráficos foram feito em D3.js, e o principal foi baseado na sensacional adaptação do chamado “diagrama de cordas” feita por Nadieh Bremer, do Visual Cinnamon.


  1. Notas, reportagens e outras publicações. ↩︎

  2. Entende-se por polêmicas casos que geraram controvérsia ou indignação por partes relevantes da classe política ou da sociedade. ↩︎

  3. O Volt está avaliando a realização de uma pesquisa semelhante para 100 dias do governo Dilma em 2016↩︎

  4. Embora a própria agência seja motivo de polêmica envolvendo a indicação do jornalista Ricardo Melo para presidência da EBC, é possível dizer que o tom das matérias é isento. ↩︎

  5. A repetição exaustiva de temas pode ser afetar o levantamentos de casos únicos. Por exemplo, falar todo dia sobre o afastamento de Romero Jucá do Ministério do Planejamento não significa que cada nova matéria trata de casos diferentes, e sim explora o mesmo caso com diferentes ângulos - de toda forma, é o mesmo caso ↩︎

Esta página foi atualizada para refletir uma correção no segundo parágrafo, que dava a entender que Temer ainda é interino. Na verdade, após afastamento de Dilma, ele foi efetivado no cargo.



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